Translate

Contacto para dúvidas ou encomendas

lena.saraiva@hotmail.com

ou deixa mensagem no Facebook

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Santa Clara na GUARDA

Ora aqui está uma informação que desconhecia por completo. Existiu um convento dedicado à Santa Clara, daí o nome Escola de Santa Clara.

Memórias quase esquecida

Desenho de Joaquim Manuel Correia da fachada principal do convento da Santa Clara em 1886.
Desenho de Joaquim Manuel Correia da fachada principal do convento da Santa Clara em 1886.
O Convento de Santa Clara

A cidade da Guarda teve, até 1888, ano em que foi derrubado, um Convento denominado de Santa Clara. Contudo, embora tenha mantido a mesma designação, conheceu vários locais: primeiro a Vela, depois a zona extramuros da cidade e finalmente o local onde se situa a actual EB 2, 3 de Santa Clara.
As freiras que o fundaram, habitaram primitivamente uma casa modesta na Vela, local de onde sairiam por não haver condições de sustentabilidade. Passaram, então, para um pequeno convento situado fora dos muros da cidade, junto à igreja de Nossa Senhora do Templo e que estaria concluído em 1344.Um ano mais tarde, Florença Anes e Maria Fernandes deslocaram-se a Roma, para obterem a aprovação pontifícia, concedida pelo Papa Clemente VI, através da bula Exposuerune nobis, datada de 2 de Abril de 1346. Este fora construído entre a estrada pública que saía da porta da Covilhã e, depois desta se fechar, da porta Nova, que se abriu junto dela, e a ermida de Nossa Senhora do Templo, num campo que desce para a banda do chafariz do Barreiro*. D. Fernando mandaria demoli-lo na altura das guerras com Castela.
Após esta demolição, as religiosas recolheram para dentro das muralhas, tendo a Câmara Municipal doado às freiras, em 1382, um terreno para construção do novo edifício, que iria ser construído ao longo de 126 anos. Seria enriquecido com a doação de uma das torres que a cidade possuía, para servir de mirante às freiras uma vez que dela se avistava um esplêndido panorama. Dele saíram religiosas para fundar os mosteiros de Santa Iria de Tomar, Madre de Deus de Vinhó e São Luís de Pinhel. Refira-se como curiosidade que, por ser considerado um dos conventos mais rigorosos, D. João III mandou recolher nele, para estar com mais crédito, D. Isabel Moniz, mãe de um filho seu, D. Duarte, mais tarde Arcebispo de Braga.
Nele se celebrava, a 15 de Janeiro, uma festa em honra de S. Félix de Nola, mártir e presbítero, cuja cabeça fazia parte do seu relicário. Era crença que possuía, ainda, o corpo de S. Pancrácio, dois espinhos da coroa do Redentor, alguns ossos dos mártires de Marrocos e um crânio de uma das onze mil virgens, entre outros.
Algumas freiras que mereceram destaque: Soror Francisca das Chagas, por caridade com os pobres; Soror Hieronyma do Espírito Santo natural da Guarda, ilustrada e sábia; Soror Brites da Coroa também natural da Guarda, que permaneceu no convento durante 93 anos; Soror Helena da Cruz igualmente natural da Guarda e irmã da anterior; Soror Filipa da Conceição, que levou uma vida de penitências e sacrifícios; Soror Brites de Jesus natural de Seia, que foi casada com um juiz ou corredor, e que se fez freira depois de lhe terem morto o marido; Soror Maria da Purificação natural da Guarda e senhora de extraordinárias virtudes e Soror Isabel Batista natural de Cidade Rodrigo, donde tinha fugido, renunciando à família e ao mundo.
O convento foi extinto em 1834, mas as freiras continuaram a habitá-lo. A última freira foi D. Rita de Cácia Evangelista Macedo, natural desta cidade, tendo falecido em 27 de Janeiro de 1885. Imediatamente as autoridades procederam à ocupação do edifício cujo património sofreu pilhagens, nomeadamente do seu mobiliário, por parte da população. Este seria ainda objecto de tentativa de transformação em hospital, mas acabaria por ser desmontado, aproveitando-se as pedras para a construção do edifício onde funciona actualmente a EB 2,3 de Santa Clara.
Quando foi derrubado, em 1888, era um casarão vasto mas bastante danificado, por falta de obras de manutenção.
Tal facto iria marcar a memória da Guarda. O jornal O Districto da Guarda de 1 de Fevereiro de 1885 referia que …Pelas 7 horas da manhã do dia 27 do mez findo rendeu a alma ao creador na sua cella do convento de Santa Clara d’esta cidade, a exm.ª sr.ª D. Rita de Cassia Evangelista do Coração de Jesus, abbadessa do mesmo convento e filha de Antonio Lourenço de Macedo e D. Maria Joaquina, todos da Guarda. S. ex.ª estava ha cinco annos doente, e nos ultimos dous nunca pôde abandonar o leito em consequencia de se terem aggravado mais os seus padecimentos.
Era a unica freira professa que existia n’aquelle mosteiro ha cerca de vinte annos, acompanhada de tres criadas, uma das quaes esteve com a sr.ª D. Rita cincoenta annos… O cadaver da finada religiosa esteve exposto no côro do convento, e depois dos suffragios prescriptos pelo ritual da ordem, foi no dia seguinte conduzido n’um caixão da casa e pobremente enterrado no cemiterio publico.
Logo depois do passamento da sr.ª abbadessa o nosso respeitavel amigo, sr. Padre Manoel José da Paixão, capellão confessor do convento ha muitos annos, participou o luctuoso successo ao exm.º prelado da diocese e sr. delegado do thesouro do districto. Este funccionario com o srs. governador civil, padre Bernardo d’Almeida (representando o sr. bispo), prior da Sé, e escrivão da camara eclesiastica, foram em seguida tomar conta do edificio e do que n’elle havia.
Os rendimentos do mosteiro orçam actualmente por 400$ réis, e a casa, antiga, de vulgar aspecto, posto que bastante espaçosa, acha-se assás arruinada.
Em relação ao convento propriamente dito, o jornal A Civilisação de 28 de Janeiro de 1888 noticia que …Consta que um grupo de cavalheiros d’esta cidade vai pedir providencias ao sr. ministro da guerra contra a demolição da torre denominada mirante das freiras.
Esta torre, que faz parte das muralhas, não era pertença do antigo convento, e se n’esta terra se cumprisse a lei, nunca o sr. governador civil consentiria na demolição d’este monumento nacional…


* Apontamentos Para a Monografia da Guarda / Carlos de Oliveira. Guarda: Câmara Municipal da Guarda, 1940
Por: António José Ramos de Oliveira
Fonte: Jornal A GUARDA

Sem comentários:

Enviar um comentário

Número total de visualizações de página